Dizem que para ser bom basta estar longe. Ou estar morto. Dizem que os mortos recebem mais flores que os vivos porque o remorso é maior do que a gratidão. As pessoas dizem muitas coisas. Por isso tendo a observar o que fazem. Diz-se tanta coisa por aí, que faço ouvidos de mercador a metade do que dizem. É que há pessoas que falam muito. Mas não (me) dizem nada.
As pessoas não são o que dizem ser. São o que mostram ser. Está aí uma grande diferença.
Falemos, por exemplo de amor. Qualquer tipo de amor. Existem vários. Dizer amo-te é fácil. Ouço-o da mesma forma que ouvia a minha mãe dizer que a comida estava pronta. Leio-o por todo lado. O amor. Palavra bonita. Mas o amor não precisa que se fale nele. Não precisa que mais linhas sejam escritas. Anseia porém ser sentido. Ser vivido. Está nos olhos de um pai choroso que não vê os filhos ocupados demais há anos. Que o amam, eles dizem. Escrevem-lhe postais. Enviam-lhe presentes. Mas não estão presentes.
Aos domingos, vejo dezenas de pessoas a sair da igreja. Trazem a sua capa de domingo bem passada a ferro. A máscara posta a preceito. Ouviram o sermão e que bonito era. Falava o prior de caridade. De um tal de Cristo que morreu por amor a nós. Para expiar os nossos pecados.
Falava do que devemos ser. Todos bateram com a mão no peito. Eu não estava lá, mas ouvi. Ouvi-o nas palavras bonitas de quem ia passando pelo caminho. Quase que acreditei nelas. Mas subitamente, a máscara caíu. A esmola que vi ali ser deixada foi cobrada na segunda feira, quando o sermão já era passado. O amor que ali foi pregado foi trocado por bens materiais para preencher o vazio emocional. Para manter o menino quieto. Para um pedido de desculpas. Uma rosa, em vez de um falhei. Um bombom em vez de um perdoa-me. Uma vídeo-chamada, em vez de uma visita.
Hoje não. Mas amanhã faço. Amanhã vou. Amanhã digo. Amanhã. Amanhã. Ainda há tempo. Vou deixar que ele passe. Porque amanhã tenho sempre mais.
Até ao dia... Até ao dia em que a ampulheta se esgota. E em que tanto ficou por fazer. Ficou nas palavras que nunca se transformaram em gestos, porque sempre haveria um depois. Um mais tarde. Um amanhã.
Até que deixou de o haver.
Miss Paty
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