Este ano vamos ter uma boa Páscoa.
Para quem vive na terrinha, como eu e gosto muito, é coisa engraçada.
Passo a descrever.
Dia que toda a gente vestes suas melhores roupas.
Eu se me fosse permitido pela minha mais que tudo, vestiria aquele belo fato, que me ofereceu pelos anos, gastou os olhos da cara porque já não aguentava mais ver-me a vestir calças de uma camisola do outro.
Um belo fato de treino.
Acompanhado por um bom par de calçado que comprei, já há muito, naquela loja bem cara, mas que são bem bonitas e confortáveis
Um par de sapatilhas, que já foram ameaçadas de ir para o lixo, porque sou o único que ainda gosta delas.
Depois de bem equipado, lá vamos nós a casa dos pais ou dos sogros.
Neste dia de paz e confraternização, lá andam os mais velhos na sua maior calma.
Tratando de aquecer fornos a lenha, verificar se as carnes estão ao ponto de levar ao forno, montando mesas para que todos estejam confortáveis, para o banquete que andam à dois dias a preparar.
Por isso muito tranquilo.
Juntamos a isto, os aperitivos!
Mas não são os que se come.
Uns belos vinhos do Porto, que se vão degustando pela manhã, juntos com outras bebidas mais (tipo tudo que aparece pela frente), nas casas de amigos e familiares.
Para que chegada a hora de ver o nosso senhor Jesus, já estejam bem desinfetados, com os níveis de álcool tranquilos, para colocar os beiços na cruz que já passou por umas centenas.
A verdadeira preparação. Nada fica ao acaso e tudo tem um propósito, muito bem pensado.
Até que chega o almoço, comidinha com fartura.
Já poucos têm vontade de comer, porque ou já comeram em tudo que era capelinha, ou a vontade de regar o assado, persistem.
Mas há que aguentar, ainda vêm as sobremesas, seguidas dos digestivos.
Não se poupa em nada.
As melhores garrafas vêm para a mesa, há que degustar, melhor dizendo emborcar.
Mais uma vez se limpam mesas, louças, se recompõem miúdos e graúdos, para receber em suas casas, o visitante do dia.
Finalmente chega a hora tão esperada, toda gente bem aprumada, uns mais do que os outros, vão beijar uma cruz.
Onde está o símbolo que assinala a ressurreição.
Só não entendo uma coisa!
O senhor vem no crucifixo, mas isso não foi o que lhe fizeram há 3 dias atrás?
OK. Siga, não é para e eu entender.
Seguem-se os beijos, em que todos são convidados à força para estarem presentes nessa roda, que se forma para cumprir a tradição, passando de pessoa em pessoa a cruz.
É quando no meio de tal silêncio, em que se aproximam de alguém, com o crucifixo bem ornamentado, para que seja beijado silêncio e com devoção, que se ouve:
“EU SOU ATEU.”
Todos os olhos se viram e o mundo para por breves momentos.
Entre as palavras, e o senhor que leva em suas mãos o senhor reaja e passe a frente de quem se recusou a beijar a cruz e ainda acrescentou a sua descrença.
Todos identificam o causador de tamanho desconforto.
Meu filho. Aquele que foi avisado anteriormente para se portar devidamente e não ser anticristo.
Não resistiu aos olhares reprovadores e repete.
“QUE FOI? SOU ATEU.”
Não sei o que lhe faça? Também não o vou obrigar a acreditar.
Se sempre o eduquei para que tivesse escolhas próprias, que lhe posso agora e eu dizer?
Mas a coisa passa e voltamos à mesa refeita e novamente recheada.
Mais comidas para todos os gostos, desde os ovos da Páscoa ao leitão, uma coisa do outro mundo.
Aproveitar-se para beber mais uns copitos, não vá nos entalarmos com as doçuras.
Meu Deus.
Mas que é isto?
Afinal estou a descrever um dia de crença ou um rally das tascas?
Come-se e bebesse como se amanhã não existisse. (Gula)
Vestem-se as roupas mais caras, previamente compradas para a ocasião. (Luxúria)
Depois de tanta gente bem vestida e se o tempo o permitir, as mais belas donzelas, apresentam os seus belos decotes, naquele vestido bem mini, para chamar a tentação dos olhos já turvos, onde até o padre não deixa de a apreciar tal beleza feminina. (Cobiça)
Mas são as mulheres que mais olham para suas concorrentes, ficando de certa forma, com possa eu dizer isto sem melindrar, "aborrecidas" se tem algum modelo, mais atraente que o seu. (Inveja)
Os homens muito ocupados dos seus copos, deixam todo o trabalho para as senhoras, para poderem ainda tirar uma soneca, em jeito de preparação para o que resta do dia. (Preguiça)
Não posso deixar de salientar o envelope recheado, com umas notas, para entregar ao senhor Pároco da freguesia, o qual a seu tempo vai dizer quanto rendeu, para que o povo saiba se foi suficiente. (avareza)
No final já me está a revoltar tudo isto e sou eu o que comete o último pecado. (ira)
Drummer
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